2010-12-25


tédios



o poema recusa surgir
porque desconheço
o húmus das noites e dos dias
que sei eu da fala do mar
e do brilho das estrelas
espelhando-se nas águas
que sei daquilo que não vejo
nem toco
que sei eu
da minha própria
voz
que não ouço
que sei eu
deste país que foge do seu cais
encalha no deserto das ideologias
mercantis
nas quais conta mais
o saldo de receitas e despesas
do que um olhar
sério e brando
para aquele velho
com sacos de plástico nas mãos
e o corpo deitado na calçada
cujas pedras
hoje quentes
nem o peso lhe sentem

o que pode a minha
voz
perante isto
o que podem estas palavras
perante os rostos contendo gritos
disfarçando-se
em breves sorrisos
porque o dia começa
e há que agarrá-lo logo
no espelho
de manhã

pessimismo

talvez
mas então somos muitos
os pessimistas
pois os rostos
carregados e sonâmbulos
e as costas vergadas
arrastando-se em correrias
pelos túneis do metro
são ensaios
cujos títulos são
vencer o dia
vamos empurrando o dia
para que a noite surja e eu me deite
não em ti
mas neste colchão gasto
pelo peso do meu corpo
vazio de emoções
resta
quando se pode
ir às lojas
às feiras
aos hiper
ver e comprar
trapos
e conversar
nem que seja
apenas
sobre a medida das calças
do vestido
da camisa
e
quando tudo corre bem
acabarmos com um sorriso
mesmo que não dê para comprar nem vender

sair
levantar um pouquito
o olhar
e procurar
entre os prédios
da cidade
o céu impossível

ajuda bastante a quebrar
este tédio
esta atitude medíocre mas
por vezes
uma alternativa possível
à morte diante da televisão
artefacto armadilhado
de pseudo comunicação

o poema afinal surgiu
o poema
que disse eu
será o poema
uma voz
o que pode então a minha
voz
perante o destempero
do mundo









imagem, Betty Martins

6 comentários:

  1. mas já dizia o Poeta, a cantiga é uma arma...

    um poema oportuno.

    muito bom!

    bom natal

    um beij

    ResponderEliminar
  2. Dopo le feste natalizie di invio un anno 2011 sereno. La tua poesia rispecchia la triste realtá del nostro mondo. Grazie anche per l'immagine di Betty Martins.
    Un grande abbraccio

    ResponderEliminar
  3. O teu poema é solo fértil, rico em húmus.
    Um eu que se diz nada saber e se julga impotente perante um mundo em destempero.Mas, as tuas palavras foram sábias, meu amigo;denunciaste de forma muito clara a realidade com que acordamos todos os dias.Deste visibilidade aos pseudo-sentimentos que são apregoados nesta época natalícia, nesta época de tanta farsa. Usaste muito bem a palavra como arma.
    São notáveis as imagens que escolhes para o cabeçalho do blogue. Esta não é excepção.
    Um novo ano de saúde, ternura e de muita alegria.
    Um beijinho

    ResponderEliminar
  4. *
    Amigo
    ,
    que as vagas de 2011,
    vos(te) traga um mar de saúde e
    marés de coisas boas (se possível)
    ,
    abraçada amizade,
    ,
    *

    ResponderEliminar
  5. Querido amigo,

    Não podemos e nem devemos ficar insensíveis aos fatos que nos cercam. Eu não consigo, sinceramente. O poema é belíssimo


    Desejo ao amigo, que muito estimo, um Novo Ano Feliz sob todos os aspectos.

    Carinhoso beijo. Obrigada por sua amizade.

    ResponderEliminar
  6. Passei aqui lendo. Vim lhe desejar um Tempo Agradável, Harmonioso e com Sabedoria. Nenhuma pessoa indicou-me ou chamou-me aqui. Gostei do que vi e li. Por isso, estou lhe convidando a visitar o meu blog. Muito Simplório por sinal. Mas, dinâmico e autêntico. E se possivel, seguirmos juntos por eles. Estarei lá, muito grato esperando por você. Se tiveres tuiter, e desejar, é só deixar que agente segue.
    Um abraço e fique com DEUS.

    http://josemariacostaescreveu.blogspot.com

    ResponderEliminar