2010-03-30

sabedoria



o meu amigo
tem a mania de defender-se
dos sons do seu tempo
das imagens do seu tempo
o meu amigo
adora ter pilhas de livros
no seu quarto
adora passear os olhos
pelos títulos
abri-los ansioso
raivoso

por vezes
deita-se na cama pensando

e se eu deitasse
metade disto fora

não

devo ler

e se fosse pelas ruas
sentir com o corpo
as imagens
e sons do meu tempo

não

devo ler

ler
ler
ler
ler
ler

ler os clássicos
os contemporâneos
tudo

ler
ler
ler
ler
ler

o meu amigo
desiste
porque se defende
do simples e terrível olhar
de uma moça que passa
por vezes apetece-lhe ir com ela
por essas ruas fora
sem controlo algum
porém pensa

não

tenho que me vigiar

sócrates
platão
kant
sócrates
platão
kant

se o meu amigo
se libertasse
no corpo de alguém que o amasse
se ele o fizesse
talvez odiasse aquelas pilhas de livros
que tem nas estantes
e não falam
não têm olhos
nem braços
nem pernas
nem ombros
nem lábios
nem sexo
mas o meu amigo abraça-os
ama-os
profundamente esquecido dos apelos
do mundo

um dia
a chuva
finalmente chegou

fui à janela
e chamei-o para em companhia
vermos a chuva caindo
os relâmpagos desenhando-se no céu
e ouvirmos os trovões
nesse momento
o meu amigo foi o meu amigo
porque simplesmente estava contente
e gozava o espectáculo da chuva
e dos relâmpagos
nesse momento
o meu amigo esqueceu os livros

que seria de si se os esquecesse
durante três dias
e três noites

será que o meu amigo caminha
olhando o chão

um outro dia encontrou-me dizendo

os teus poemas são influenciados por alberto caeiro

ora bolas
o meu amigo é tão
sábio






imagem Henri Cartier Bresson

7 comentários:

  1. Gostei mesmo muito! Hás-de perguntar ao teu amigo se não voltou a refugiar-se nos livros depois de o amor o ter deixado sem ar... Abraço!

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  2. Que texto interessante!

    Você conseguiu tirar seu amigo do seu percurso, do seu encerro individualista O olhar, o pré ou o pseudo sentir, tudo faz parte dos conhecimentos adquiridos no mundo dos livros. O que vivenciamos, a razão das nossas experiências e reais sentimentos com o mundo interior e exterior, esta contemplação da vida, a nossa relação com tudo isso é que é determinante no existir e na sabedoria.Do livro ele adquire cultura, da vida a experiência. Com tanto saber ele precisa vivenciá-lo, existindo. Oxalá ele continue fora desta cela individualista. A extensão do saber, quando aplicada ao existir é uma sabedoria. Parabéns, amigo! Precisei escrever tanto e de modo confuso rsrs e você num gesto simples disse tudo! Eu leio receitas, mas não sei cozinhar! Rsrs.


    Uma feliz Páscoa para você e familiares. Carinhoso beijo

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  3. Depois de uma janela aberta , e ainda mais para ouvir trovões ,é impossível ficar o mesmo .

    Um Beijo e Feliz Páscoa ,

    Maria

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  4. Querido amico,
    ti auguro una dolce e Santa Pasqua con tanto affetto.
    Baci

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  5. Saúde para todos nós, amigo! A foto do cabeçalho está linda! Cada vez que aqui venho fico admirando o seu bom gosto.


    Uma excelente semana! Beijos, com carinho.

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  6. Obrigada amigo. Esta força sempre vem das energias dos amigos, da família... São fontes incessantes em benefícios mútuos.

    *Estou rindo com a sua gostosa observação rsrs. Eu canto abraçada aos amigos e cantamos todos com um amigo que realmente canta muito bem . Fazemos o coro da animação, o barulho da alegria e descontração... Do contrário, ai de mim! E dos que possam ouvir nitidamente hahahahaahahaah.

    Quando você fala do seu abraço amigo do outro lado do Atlântico...Ah que vontade que me dá de sair nadando para abraçá-lo realmente! Rsrs. De verdade.... Obrigada. Muito obrigada!

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  7. Olá, Jota :)

    O cabeçalho do blogue está um espanto mesmo! E a tua poesia, fantástica e cheia de conteúdo. Parabéns!
    Afinal, a sabedoria reveste-se de tantas formas... Mas todas passam pela "abertura aos outros", digo eu que não sou sábia :) de todo.
    Leituras q.b. - vida dos sentidos q.b. (uma fórmula rudimentar para traduzir o intraduzível).

    Deixo-te um abraço com votos de excelente continuação de um merecido descanso.

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