2010-03-04

cidadania



é manhã
olho em volta

escolho o quê
talvez aquele peito
ousando a nudez
como resistência
à frieza
dos cínicos
logo de madrugada
fechados em gabinetes
ou no banco traseiro de um carro
escuro
com os olhos postos
em números e conjuras

olho em volta
e se aguardo por um sorriso
tenho que esperar pela
eternidade
um bom dia
nem com a morte
surge
essa rápida e inesperada visita
que se aceita mas dispensa

escrevo encostado
a uma montra
de uma papelaria livraria corajosa
curiosamente
uma montra de livros em saldo
alguns quase ícones de uma época
aqui não houve o desprezo
da ignorância
os livros não foram para o lixo
e o livreiro fez mais algum
não é com certeza dos que choram
que o comércio de rua está mal
com a concorrência
dos centros comerciais e dos hiper
e outras lamúrias

inteligente pessoa

detenho o olhar num título
o cú através dos tempos
um homem olha para mim
para o meu boné e a caneta

que faz ali aquele todo agasalhado
não respirando
o ar da manhã

terá sido isso

não sei
reparou no meu acto
na minha figura
foi alguma coisa

entrei numa zona de bairro
ouvem-se vozes em vez de carros
nada mau
mas não olhares de bom dia

é curioso
estou num bairro do centro de lisboa

ouso e digo bom dia
em tom cordial
a uma mulher
olha para mim
surpresa e assustada
virando a cara
desviando-se violentamente

mais adiante
com outra pessoa
ouso outra vez

bom dia

nada
nem uma ínfima reacção

que fazer
se os lábios
e os olhos
recusam
uma bênção







imagem Henri Cartier Bresson


8 comentários:

  1. Adorei esta tua exposição poética quase em prosa, do quotidiano de uma rua Lisboeta e achei fantástico, porque é isso mesmo que acontece.
    Aproveito para pedir desculpa por ter andado cada vez mais escondida mas ainda não está na hora de aparecer preciso primeiro de resolver mais psicologicamente do que fisicamente alguns "problemas" que já duram há meses é pior que as bactérias que nos consomenm o corpo e a mente, mas sou assim enquanto não estiver com estas coisas resolvidas falta-me a paciência.
    Beijo

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  2. Buon giorno amico:)),
    la tua poesia é speciale. Porta vicino alla realtá delle grandi cittá. Mi viene in mente la parola "alienazione".
    Un grande abbraccio

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  3. De costas voltadas batendo a portas virtuais. Gostei.

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  4. ._________querido Jota


    é isso mesmo que acontece_________cegos.surdos.mudos!!!


    quando ando nas ruas de Lisboa________fere[me] a apatia das pessoas

    vem logo à minha memoria:


    Brave New World - escrito por Aldous Huxley e publicado em 1932 - e tão actual.

    ou:

    Nineteen Eighty-Four de George Orwell. fico completamente arrepiada!!!


    ...


    adorei.
    adorei de verdade o poema







    _________///







    beijO______ternO

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  5. Um muito interessante poema, crítico e descritivo.

    Custa-me cada vez mais imaginar livros a serem destruídos, nesta sociedade de aparente abundância. Nela, o absurdo domina cada vez mais.
    As pessoas não se falam, nem se cumprimentam. Se alguém o faz, é logo olhado como um verdadeiro alienígena.

    Parabéns, Jota. A poesia é uma forma de intervenção, e tu sabes muito bem criá-la assim.

    Um abraço :)

    P.S. - O blogue está realmente giro, e original!

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  6. Querido amigo,


    Toda esta triste realidade impressa no seu poema é muito sentida por mim. Um mal resultante das grandes Metrópoles. O individualismo, a artificialidade e a superficialidade dominaram as grandes cidades e fazem dos seus habitantes vítimas da apatia, antipatia e indiferença . Tudo isto não se fala, mas observo e tenho para mim que este mal tem feito um grande número de vítimas ( muitas fatais) nos dias atuais. Observei que principalmente os idosos e pessoas sensíveis ficam doentes pelo fato de faltar-lhes um olhar, uma boa palavra, um abraço, um sorriso...Enfim, o calor humano. Esta falta de comunicação tem levado milhares e milhares de pessoas aos consultórios médicos e até mesmo ao óbito por conseqüências da depressão. Por isso, desde sempre, jamais faltei com este exercício diário de afetividade com alguém. E quando acontece de alguém que nunca vi antes receber um abraço meu ( geralmente idosos, muito mais vitimas desta apatia) em consultórios médicos, hotéis...onde tiver ocasião e sorrindo me agradecerem por sentirem-se bem e confortáveis, eu sorrio ainda mais, visto que a maior beneficiada com a troca de afeto, sou eu rsrs. E assim criei as minhas filhas. Confesso que para algumas pessoas tremendamente antipáticas as quais não respondem ao meu sorridente cumprimento ( mas não é comum) eu digo ou penso: também não mais a cumprimento! Mas esqueço hahahaahah e quando vejo a pessoa torno a fazer o mesmo hahahaha. E, este é o motivo pelo qual não mudo da minha cidade. Ainda aqui temos a simplicidade saudável que já não encontramos nas grandes cidades.


    Um ótimo dia e carinhoso beijo.

    * Obrigada pelas palavras de incentivo! Na verdade jamais fui de escrever ( a não ser petições no exercício da profissão ou dissertações nos tempo de colégio rsrs). Eduquei pessoalmente minhas filhas...Mas cresceram e caminham por si mesmas e temi não mais saber escrever sequer uma lista de supermercado rsrs. E ousei fazer o Desnuda, após o Sam, mais intimista e sem qualquer pretensão literária ( mesmo porque nada sei). Apenas escrever para continuar a escrever ( hoje digitar rsrs). De qualquer forma, agradeço.

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  7. Linda Prece*
    *Na verde encosta coberta de asas
    já repica um azul de violetas.
    Somente ao longo da floresta escura
    demora a neve em línguas dentilhadas,
    mas gota a gota se vai desfazendo
    atraída pela sede da terra.
    No pálido céu alto pastam alvos
    rebanhos de nuvens. Um pintassilgo
    em amoroso canto se desfaz:
    - Homens, amem-se e cantem em paz!

    Herman Hesse*

    Trad. pela Renata*

    Gosto de você, Jota*
    Tenha um Dia com muito Amor e Paz!
    Renata

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