2009-09-03

Quase poema quase comédia + Zabriskie Point - Antonionni - Pink Floyd

Quase poema quase comédia


sento-me para escrever
não surge
não tenho
não sou
não escrevo
estou em branco

só me sentei
para descansar as pernas
mas ficar sentado
sem fazer nada
é frete
estar sentado
sem fazer nada é morrer
o mercado impõe
correr correr correr
fazer nada
é ser pária

tentei articular o om universal
saía distorcido
ronco bronco
feio

abstraí-me
dos dislates
ouvidos ontem da boca besta
de um tipo dos negócios
com empresas sem sair gente
sem despedir
segundo ele
isso não é preciso
nas suas empresas
não sai gente
alicia-se a mudar
mobilidade
ir e vir
daqui pr’ ali
dali pr’ aqui
onde der mais
se for na lua
também serve
filhos família
pais avós tios primos
isso não é impedimento
acena-se
alicia-se
com mais uns bons euros
e o incauto
à beira dos trinta
de olhos parvos
pensa
é dinheiro
é dinheiro
e vai
vai pr’aqui pr’ali
para marte
sei lá
e a mulher em casa
porque agora já dá
p’ra ela ficar com os filhos
levá-los
à escola
ao infantário
à natação
ao ténis
ao inglês
ao psicólogo
ao pedopsiquiatra
e à noite
o pai
q’é dele
‘tá a trabalhar
a trabalhar muito
a trabalhar à tarefa
‘tá p’r ali à tarefa
pr’o menino ter uma consola nova
um ténis novo
um boné novo
um tele novo
vivó pai
dizem os moços
e vão dormir
custa-lhes
dão voltas
p’rá esquerda
p’rá direita
p’ra cima
p’ra baixo

a mãe
sozinha no quarto
baixinho
p’ra cima
p’ra baixo
p’ra cima
pr’a baixo
ai ai ai
é fraquito
mas é algum
a ratita solta um fiito
a boca um gemidito
e p’onto
p’ró outro lado
qu’amanhã é outro dia
e o pai à tarefa
à tarefa
objectivos pr’aqui
objectivos pr’acolá
mexe-se
agita-se
esfrega a testa
aperta os testículos
a tarefa
a tarefa
tem que estar tudo pronto amanhã
querida
esta noite não vou a casa
estou p’rá aqui à tarefa filha
amanhã já me vês sim
depois compro-te aquele vestido lindo
de que gostaste amor

dorme

não dá por nada
é cedo ainda
p’ra quê atender
assim ele não perde tempo
e traz o dinheiro depressa
belo atendedor
nem preciso de mexer a mão
nem ouvir a voz daquele parvo
que não venha
que fique lá
nem caralho tem que preste
nem me faz gritar
nem me aperta
fica
rico
fica
fica p’r aí à tarefa

disse entredentes
com raiva contida
de mal fodida

o dia está bom
dou a volta do costume
com o gonçalo e a mili
enquanto estão na escola
vou ter co’a berta
vamos ao solário
e depois lamber um gelado
bem lambidito
assim
p’ra cima
p’ra baixo
pr’a cima
pr’a baixo
e o dia passa

passou

olá stora
como está
a mili portou-se bem
é tão querida
mãe
o pai vem hoje
espera um ‘cadinho filha
a mamã ‘tá a falar c’a stora
olhe
gosto muito do seu trabalho
tem uma paciência
até amanhã
mãe
o pai vem hoje
não qu’ida
‘tá à tarefa no norte
amanhã vem sim
amanhã
e traz-te uma barbie nova
novinha
uma vampe
iupi mãe que bom
o pai é tão qu’ido
não é mãe
é filha é
vem ‘mor
´té ‘manhã stora
‘brigado pela pachorra

o gonca ouve tudo
regista
tremelica
balbucia
gagueja
agita os lábios

ó qu’ido
que tens ‘mor

o gonca
tremelica
balbucia
gagueja
agita os lábios

ó qu’ido
que tens ‘mor
a ritalina
mãe
a ritalina que estou aflito
ó filho
isso a estas horas
amanhã de manhã
fofo
antes d’ires p’ra escola
a rita
mãe
a rita
mãe
dá-me a rita
ó filho
deixa-te disso
acalama filho
relaxa
amanhã
hoje compro-te a consola sim
acalma filho
relaxa qu’ido
mãe
dá-me a ri-ta-li-na
baixinho ‘mor
partes os vidros do bm
e depois ‘deus consola
mãe
a rita
a rita
ai filho
pareces um tóxico
qu’horror qu’ido
relaxa
mãe
a ri-ta-li-na
mãe
a ri-ta-li-na
mããããããeeee
a ri-ta-liiiiiiiiiiina
qu’eu rebento
controla-te filho
relaxa

a mimi
de olhos doces e belos
como a sua velha barbie
tranquila
lambe um gelado

mãe
mãe
então rica
agora tu
relaxa q’a música é fixe rica
mãe
mãe
cuidaaaaaaaado
o gonca
o quê filha
porra
o gonca vai

o bm parou no vermelho
mesmo a tempo
o joaninha passou calmo lento e belo

a buzina tocou eternidade
o belíssimo rosto da mãe
jaz em cima do volante
uma mama
rija e suculenta
jaz espalmada no volante
o gonca tranquilo
sereno
de olhar feliz
e lábios calmos
sopra o fumo brando
do colt 35

e o pai à tarefa
à tarefa
à tarefa
limpando a testa
quase ‘acabar
quase quase ‘acabar a tarefa
quase rico com aquela tarefa

quase

amanhã
é outro dia

olha ‘ali uma barbie gonca
ele
o gonca
abriu o porta-luvas
tirou o frasco
abriu a porta do carro
empurrou-a
saiu
olhou
para o céu azul-limpo
olhou para a malinha da mãe
abriu-a
retirou um lenço de linho branco
levou-o à testa
limpou o suor frio
olhou para o céu azul-limpo
olhou para o frasco
olhou para a colt 35
trepou ao tejadilho vermelho
ergueu o braço direito
e largou o lenço de linho branco

fazia vento
brando
mas vento
olhou para o céu azul-limpo
seguiu o voo do lenço de linho branco
e assim ficou
olhando

e o pai à tarefa
atarefado
limpando da testa
o suor febril e frio
atarefa-se na tarefa de acabar o trabalho
à tarefa

a mimi
entrou na loja
cumprimentou
olhou a barbie
esticou o braço
pegou na boneca
aconchegou-a no peito
cumprimentou
olhou para a porta
saiu devagar
serena e lúcida
caminhou
olhou para o gonca
de pé
no tejadilho vermelho
olhando o céu azul-turvo
trepou
olhou o irmão
largou a barbie
agarrou a mão do gonca
e assim ficaram
vendo o céu azul-escuro

o vento era frio
e a noite caía
matando o crepúsculo
sem esperança de aurora

e eu aqui
sentado

ensaiei outra vez o om universal
saía distorcido
ronco bronco
feio

afinal escrevi

o quê
para quê

como disse a outra
e eu subscrevo
poeta não sou
que outros o dizem melhor que eu
isto disse eu
e não sei se a outra subscreve

que importa
cada um
é aquilo
que a sua demência
lhe dita

escrevi
afinal escrevi

pelo menos
a mão mexeu-se
já não me sinto
tão inútil
dediquei uma boa acção
a mim prórpio
exercitei alguns músculos
porém estou em branco
e sem tarefa à tarefa
o que não quero
e me enoja
talvez este nojo seja vírus
e contamine os atarefados à tarefa
de todas as tarefas
e o mundo acolha
o lenço de linho

branco



Nota – Ritalina é o nome de um medicamento receitado a crianças, em idade escolar, com grandes dificuldades de concentração e distúrbios emocionais graves.


17 comentários:

  1. Bom dia, amigo!

    Um triste quadro aqui muito bem retratado.Esta é a sociedade que vivemos. Uma máquina engrenada a esmagar todos nós. E que não sentimos pela visão viciada e turvada. Somos filhos – pais - vítimas da opressão de um sistema social e das normas convencionais. Somos a alavanca desta máquina. A família, tantos sonhos de tantos quantos forem. Quais os limites de cada um? "cada um é aquilo que a sua demência lhe dita". E assim vamos sepultando” o crepúsculo
    sem esperança de aurora.” Somos assassinos e órfãos de nós mesmos. Há sempre um espaço-tempo para um om universal. Que saia rouco, ronco, feio e distorcido. O tempo e a prática que moldará a sonoridade, manifestação do tipo de energia de cada um, sem culpa deste branco. " Às vezes me dá enjôo de gente. Depois passa e fico de novo toda curiosa e atenta. E é só.”Clarice Lispector.


    Carinhoso beijo.

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  2. Boa noite, amigo!


    Procuro esforçar-me para estar a altura dos teus textos e pela gratidão por aprender tanto com eles.


    Um beijo

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  3. Jota, meu deus, chegas de férias e já entras a "matar"?
    Sabes, eu acho que tu escreves bem, mas já não é a primeira vez que um poema/texto teu me deprime. Porque também há gente que é GENTE! Há GENTE que não viveu nem vive assim!
    Há GENTE que pensou/pensa e optou/opta por não pertencer a esta "coisa", a que dão o nome de sociedade! Era possível há 30 anos e é possível agora!!! E não se estava/está sozinho(a)!!! Falo da minha geração e da geração do meu filho!!! Eu, com 51 anos. Ele, com 26 anos.
    Desculpa Jota, mas só aqui posso escrever o que penso ou então não escrever. Fiz a minha opção!!!
    Abraço-te.
    Fátima

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  4. Jota, não ficaste zangado, pois não? Comecei por te dizer que gosto da forma como escreves!
    Eu li o teu poema do princípio ao fim. Li-o como um todo! Vi a nota sobre o "Ritalina"!
    Continuo a pensar que há gente e GENTE!
    Culpabilizar? Não! Responsabilizar, sim!
    Opção: não tenham filhos!
    Sou filha e sou mãe! Relativamente a estes factos, sou mesmo "terrível"! Não só pela minha própria experiência, como de outros(as) reais e bem próximos(as) de mim!
    Contradição: não defendo de todo "certezas absolutas", antes pelo contrário!
    Abraço-te novamente.
    Fátima

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  5. Um poema muito forte, e que se lê num fôlego, sem fôlego :)

    Retratas muito bem uma forma de viver que existe lamentavelmente. É de lamentar porque essas pessoas andam numa corrida louca e não alcançam de todo a felicidade.

    Claro que também há quem fique fora deste tipo de dependências terríveis que referes. Os filhos podem trazer imensos problemas, sempre responsabilidades, mas também há alegrias.

    Beijinhos serenos para ti (se conseguirmos um pouco de calma neste mundo quase-louco...).

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  6. Bem retratado quadro e como dizes no teu texto " cada um
    é aquilo
    que a sua demência
    lhe dita"

    ps: e tu nunca assinas com o link do teu blog e eu quase não te encontro na minha lista quilométrica, rs...

    Beijinhos

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  7. Grande poema, como pedido e de boa vontada venho fazer a pedida visita como aliás estou a recomeçar a fazer aos amigos, leva um pouco de tempo porque já é muita gente mas devgarinho lá chegaremos a todos.
    Beijo
    Isabel

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  8. Olá Jota

    De regresso aos blogues, depois desta inércia desgraçada.

    Já tinha vindo dar uma espreitadela à tua publicação e hoje li e reli e só posso subscrever as tuas palavras. Isto, porque retratas com uma "pitada de surrealismo" alguns de nós, talvez, muitos de nós, que nos deixamos enlaçar, voluntária ou involuntariamente por esta teia chamada sociedade.
    Revelas aqui um olhar muito atento, crítico e aberto àquilo que nos servem no "prato" e que comemos com sofreguidão, sem a menor atenção à (in)qualidade que nos é servida.

    Acredita que é sempre um gosto vir aqui "servir-me de uma boa refeição".

    Beijinho grande e força para as novas funções.

    Ah, ainda bem que estavas em branco... se assim não fosse sairia um poema tão rebelde???

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  9. Olá Jota

    Voltei novamente porque depois de ler este teu poema soltaram-se-me os dedos e finalmente apeteceu-me voltar a escrever. Dedico-te o poema lá deixado.
    Obrigada e um grande abraço

    MV

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  10. Olá Jota, como estás? Já (re)começaste a correr? Espero que ainda não.
    No "CONTRACENAR" tens um selinho com um "olho azul" muito engraçado. Vai lá buscar, está bem? Se te apetecer, podes dar uma olhada no mais recente blogue "My Mobile Blog" :)*

    Abraço.
    Fátima

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  11. Bom dia!
    Poema fortíssimo.

    Deixo para ti o desejo de uma ótima semana.

    Um beijo.

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  12. Olá Jota. O "olho azul" está umas páginas mais para trás. Se tiveres paciência..., se não tiveres, não faz mal.
    Sabes, publicar no "My Mobile Blog" é muito engraçado e não se perde tempo. As publicações são efectuadas no meu telemóvel. Não preciso de computador. Posso posteriormente aceder ao blogue - quando eu quiser. Topas? :)))

    Tudo de bom, Jota e vê lá se consegues este ano (Setembro / Julho) não correr tanto. :)

    Abraço.
    Fátima

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  13. Jotaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa, precisas acalmar essa ansiedade, essa revolta. Só te faz mal a ti, e não resolves nada.
    Eu não sou indiferente ao que se passa. Tenho olhos na cara. Mas nada é novidade. Há quantos anos andamos nisto???
    É uma questão de cultura. E enquanto toda a gente perceber de política e futebol, vamos continuar assim.
    Cada um de nós tem que fazer o seu "trabalho de casa", com a família e principalmente com os filhos. Só assim eu consigo ver muitoooooooooooooo ao fundo do túnel uma luz e fraquinha.
    Como dizia o outro, que eu agora não me lembro o nome e já o escrevi algures: "um país inculto é um país fraco". E jota, na minha opinião, vamos continuar assim por muitos e muitos longos anos. Basta ires tomar um café e ouvir as conversas. Antigamente "passava-me". Agora, Jota, agora já não. Eu fiz o meu trabalho de casa, o meu filho faz e fará o dele e assim sucessivamente. Olha, estou cheia de sono, nem vou ler o que escrevi. Um abraço e vê lá se te acalmas, homem!

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  14. E aí, meu caro!
    Rapaz... muito interessante o poema. E sobre o Zabriskie Point, este trecho final do filme é fantástico!! Pra mim, sem dúvida é a melhor parte do filme.
    ATé!

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  15. Como não temos escrita nova, deixo um abraço para ti e bom trabalho, sem exageros.
    Beijo
    Isabel

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  16. Eina, Jota, chego aqui e fico com os olhos a arder. Não é do poema que como sempre é de boa cepa, mas por estar mais para lá do que para cá. Fiquei sem pi, como se costuma dizer. Espero arrebitar brevemente, senão nem sei.

    Vou ao Pasolini...

    Bj

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