2009-07-08

Sem título (poema). A voz Humana, Jean Cocteau.

Sugiro desligar o leitor no lado direito.


esta terra
está aqui
ainda
diante de mim
é negra
húmida
arável
é terra
bem haja

esta pedra
está aqui
ainda
diante de mim
é terna
frágil
brilha
é pedra
bem haja

esta água
está aqui
ainda
aqui
diante de mim
límpida
transparente
fresca
é água
bem haja

esta árvore
está aqui
ainda
diante de mim
é alta
robusta
frondosa
é árvore
bem haja

este gato
está aqui
ainda
diante de mim
é gato
rebola-se
corre
salta
é gato
bem haja

esta criança
está aqui
ainda
diante de mim
ri
chora
canta
brinca
é criança
bem haja

esta coisa
está aqui
ainda
diante de mim
é isto e aquilo
nem isto nem aquilo
talvez assim
ou talvez não
tem cabeça
tronco
pernas
braços
pés
sexo

que lhe falta

mal haja
bem haja

que dizer

---

A voz humana

Notas soltas, partilhadas convosco.

Quero encenar este texto; não sei é quando. Este e o "Pranto de Maria Parda" do nosso Gil Vicente, tão esquecido - ó tragédia esta! O texto de Cocteau lê-se, quase sempre, como sendo para uma actriz; tanto pode ser para um actor ou uma actriz. Esta voz humana é a voz da solidão deseperada do mundo. Precisa de ter a presença física de terra. A natureza acentua a solidão. E não sei se deva ser representada num quarto ou ao ar livre com uma árvore por perto e o som das águas de um rio.... O som forte do mar como interiorização, para o espectador, de certos momentos do texto. Ruído de aviões carros entorpecendo a comunicação. Zangas entre casais. Programas de TV - são possibilidades para a montagem. Vídeo em palco para esses momentos? Agora se alguém aproveita estas ideias, dou-lhe cabo do canastro... O mais certo é já ter sido feita, mais ou menos assim. Mas não me preocupa muito a originalidade... O que é isso?... O que há para inventar?

Isto é bom. Vede!




14 comentários:

  1. Jota, só para te desejar igualmente uma boa semana, tranquila q.b. .
    Hoje já é tarde. Volto depois para ver com a devida atenção esta tua última publicação.
    Abraço.
    Fátima

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  2. O teu poema está muito belo e eficaz no encadeamento em que apresentas o crescendo. Quanto a esse texto do Cocteau, recorro a eles muitas vezes. Porque será... Bom resto de semana!

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  3. Adorei amigo! O poema e todo o conjunto da sua sempre rica postagem. Sem falar do absurdamente BELO painel da Betty.


    Stop tempo/espaço e uma viagem na minha imaginação....

    Esta frase "mal haja , bem haja" associei ao costume de desfolhar uma margaridinha e dizer mal me quer, bem me quer... Porque na verdade não só a repeito do conteúdo do belo poema, mas a Cocteau e Poulenc.


    Ingrid Bergman! Ah, como adoro!!! Tenho uma foto de minha mãe...Tão parecida com ela! Lembrei-me...Veja quantas observações neste post fiz! Rsrs. Uma magistral interpretação, da dor desesperada e do cenário absolutamente desolador: bandeja ao chão, a rachadura no teto, o retrato do amante em pedaços , sem faltar o impassível cão.... E depois, a voz maravilhosa , ópera de Poulenc com Carole Farley...Bravo!!! Aqui renho oportunidade de aprender...Obrigada, amigo.

    Beijos e ótima semana!

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  4. Gostei imenso do poema e da tua ideia! Tomara venhas a concretizá-la. Acho que vale bem a pena encenares. Talvez eu preferisse ao ar livre. :) Seria mais verde ainda! Mas é só uma opinião...

    P.S. - Olha, os relatórios viraram assombração na minha vida! E ainda ando com a ficha de auto-avaliação.

    Beijinhos :)

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  5. Esqueci-me de te dizer: o cabeçalho está excelente!!

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  6. Olá Jota

    Venho dizer olá, já estou com um pé nas férias. Espectacular o cabeçalho.

    Gostei de toda a tua publicação. Agora vou e desejo-te umas excelentes férias. Penso voltar lá para Setembro. Mas se tiver oportunidade ainda vou passando por aqui.

    Beijinhos
    Isabel

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  7. Viva Jota, voltei com muito mar dentro de mim a cheirar a maresia e trouxeum bocadinho para todos vocês.
    Beijinhos

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  8. Amigo,

    feliz em saber do livro! Poder partilhar com amigos entusiasmo, sentimentos e sonhos faz tão bem!!! E claro, já com dedo em riste digo ao mestre: presente! Conte comigo!


    Vibrações positivas! Um belo fim de semana! Beijo

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  9. Olá Jota

    Que publicação! Fazia-me falta uma boa dose de retórica para a comentar, mas...

    Estou livre de me quebrares o canastro, não me meto por aí, mesmo que quisesse "arreliar-te" não seria capaz. Não só é de mais a ausência de retórica, como a esterilidade em quase tudo.

    Que soberba imagem puseste no cabeçalho do teu blogue!

    Beijinho grande e espero que já estejas em descanso da fantochada dos finais de ano.

    MV

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  10. Olá Jota, tenho andado armada em "amiga da onça", mas cheguei finalmente.
    Os vídeos são bons, sim - as interpretações são fantásticas, principalmente a da "Ingrid", para mim.

    Caramba..., BEM-HAJA tudo o que ainda existe e temos de bom.
    Se a encenação do texto se concretizar..., avisa.
    Para inventar, talvez já não haja muita coisa, mas penso que subsistirá sempre a originalidade da transformação.

    Um abraço.
    Fátima

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  11. boa noite.
    estou no curso de interpretaçao e vou fazer pap este ano lectivo. uma das minha ideias seria "a voz humana", e na minha pesquisa encontrei o seu blog. é encenador?
    atenciosamente, marta correia

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  12. caramba...ando novamente á procura do texto VOZ HUMANA e eis que vim dar aqui!
    de relance e a arfar de pressa ,mas que bela paisagem de ideias!

    eu tenho o PRANTO DE MARIA PARDA em cena desde a Expo 98 Lol .

    e ando para fazer A voz humana há uns anos também...


    bem,mais logo volto cá,para ver este «espaço de ideias» com muita atenção. :)

    poema-me quando quiseres :)

    Hatma

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