2009-06-07

Tédio - poema. O Cinema continua. Persona. Bergman

tédio


o poema recusa surgir
porque desconheço
o húmus das noites e dos dias
que sei eu da fala do mar
e do brilho das estrelas
espelhando-se nas águas
que sei daquilo que não vejo
nem toco
que sei eu
da minha própria
voz
que não ouço
que sei eu
deste país que foge do seu cais
encalha no deserto das ideologias
mercantis
nas quais conta mais
o saldo de receitas e despesas
do que um olhar
sério e brando
para aquele velho
com sacos de plástico nas mãos
e o corpo deitado na calçada
cujas pedras
hoje quentes
nem o peso lhe sentem

o que pode a minha
voz
perante isto
o que podem estas palavras
perante os rostos contendo gritos
disfarçando-se
em breves sorrisos
porque o dia começa
e há que agarrá-lo logo
no espelho
de manhã

pessimismo

talvez

mas
em cada manhã
os rostos carregados e sonâmbulos
e as costas vergadas
arrastando-se em correrias
pelos túneis do metro
são ensaios
cujos títulos são

vencer o dia
vamos empurrando o dia
para que a noite surja e eu me deite
não em ti
mas neste colchão gasto
pelo peso do meu corpo
vazio de emoções

resta

quando se pode

ir às lojas
às feiras
aos hiper
ver e comprar
trapos
e conversar
nem que seja
apenas
sobre a medida das calças
do vestido
da camisa
e
quando tudo corre bem
acabarmos com um sorriso
mesmo que não dê para comprar nem vender

sair então
levantar um pouquito
o olhar
e procurar
entre os prédios
da cidade
o céu impossível

ajuda bastante a quebrar
este tédio
esta atitude medíocre mas
por vezes
uma alternativa possível
à morte diante da televisão
artefacto armadilhado
de pseudo-comunicação

o poema afinal surgiu
o poema
que disse eu
será o poema
uma voz
o que pode então a minha
voz
perante o destempero
do mundo



Já que nem tempo tenho para ir ao cinema, vou relembrando o que vi e me marcou.










9 comentários:

  1. Olá Jota

    Com o teu poema e Bergman estamos novamente num período de interrogações existencialistas. Temos de fazer alguma coisa para sair desta tristeza que se atravessa sob o semblante das pessoas. Mas o quê? Eu ainda acredito que as artes salvam tudo, que aos poetas cabe nomear o mundo. E não é refúgio, é o contrário, é ter uma percepção do real profunda e analítica.

    Estamos cada vez mais distantes da humanidade, será?

    Beijinho e começa a semana com o pé direito, o esquerdo também dá jeito:)
    Isabel

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  2. Bergman figura de referência para mim. Grande.

    Do teu belíssimo poema retirei interrogações e inquietudes face à falta de respeito pela dignidade humana; ao mesmo tempo deixas passar algumas frinchas de esperança, abalroadas logo pela impotência que sentes em mudar o estado degradante da vida miserável de certas pessoas.

    E que pode a tua voz e as tuas palavras? Podem algo, sim, não podem mudar, mas podem denunciar, e isto é uma forma de afago a quem vive em condições desumanas. É como se desses um beijo ou um abraço, afectos que normalmente andam afastados das "musas" do teu poema.

    Beijinho

    MV

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  3. Bergman será uma referência para muita gente, mas o teu poema saíu e as tristezas também devem sair, a voz não pode ser surda tem que ser ouvida e se precisares grita, alivia.
    Beijo
    Isabel

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  4. Sinceramente, adorei o teu poema! Tão descritivo e incisivo na alma! Acho excelente que o tenhas escrito: é, além do mais, uma forma de intervenção.

    Quanto ao Bergman, bom... é um dos meus realizadores preferidos. Faz sentido, né? :) O peso da existência que tantas vezes se agudiza com um olhar filosófico sobre a realidade.

    Desejo-te uns óptimos feriados, com algum descanso e comunicação :)

    Que este final de ano lectivo vá singrando menos penoso, se possível... Será possível?!

    Um beijinho para ti da Ana Paula!

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  5. ...gostei do que vi e li
    ...um abraço

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  6. Um momento que me fez pensar...
    Grata por esta imensa partilha, que admirei e gostei.
    Um abraço

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  7. Olá Jota. Tenho andado arredada. Desculpa.
    Tão real este teu poema. Também eu às vezes ando sonâmbula e de costas vergadas, não nos túneis do metro, mas numa carruagem de comboio. Não me queixo. Ainda sei olhar o mar, o rio, as gaivotas, o céu..., sorte a minha, que tudo tenho perto de mim.

    Abraço Jota.

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  8. Olá!! Me perdoe pelo engano, mas já arrumei lá no Arte por parte! Como não tinha visto nada referente sobre isso no seu perfil, acabei achando que o poematar era "a" poematar! Mas acontece!! (risos)

    Belo poema e gostei bastante dos trechos dos filmes também!

    Até!!!

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  9. Olá Jota

    Aproveita o fim-de-semana para relaxares, andas muito cansado, mas não podes, já estás a uns dias das férias.

    E não te esqueças do selinho carioca, pelo menos vamos brincando para resistirmos. A vida nem sempre é o que esperamos dela, o cansaço já me fez querer desistir, não abrir mais o computador. Olha, o certo é que a amizade aqui é séria e vale a pena.

    Beijinho
    Isabel

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