2009-03-08

De faxineira-sonhadora a faz-tudo ( No dia internacional da mulher.)

disse ela

escrevo de roupão
e pantufas
mas escrevo
é melhor do que
ficar sentada frente à televisão
fazendo da minha cabeça
um pêndulo de sono
e o maxilar inferior
descaído
rosto de defunta
aguardando a aurora
que vejo desta vidraça
emoldurada de alumínio
verde

lá em baixo
a luz não é luz
nem candeia
essa luz é
pois o deserto das ruas
de luz não precisa
mais valia o escuro
poupava-se
e talvez assim
me decidisse
a descer as escadas
indo ao encontro
do nada
que é o que somos
quando
vazios de emoções e vivências
apenas temos o ar a
a rugir
aprisionado nos intestinos
talvez assim deambulasse pelo parque
e as sombras
me iluminassem
no escuro
talvez assim
adormecesse por ali
e a aurora me acordasse
com os seus raios
despertando-me a fronte
os olhos abrissem para a
relva verde
e eu caminhasse
corresse
saltasse
dançasse
e daqui
apenas com o olhar
secasse a roupa
pendurada no arame
e lavasse a outra que aguarda
as minhas mãos
de faxineira sem tempo
nem vontade
para carícias na face dos outros
nem na pele
das minhas pernas

esqueci tudo
tudo
até o que abaixo do umbigo treme e esquece
o calor de um jacto branco
humedecendo mais o que já húmido estaria
e assim
deixar-me-ia cair
para trás
sentimento e movimento
contrários
à idiota inércia de um
corpo dobrado frente à televisão
talvez então houvesse uma magia
coisa impossível
tratasse da casa
dos filhos
do homem
e eu pudesse
estar com eles
e os amigos
caminhando
ao longo da praia
conversando todos
com o mar
e as ondas
e a sua frescura temperasse
a mente humana
de alguma sensatez
face à ganância
e a violência
de querer poder
controlar a natureza
essa mãe
que tudo sabe
tudo sofre
e pouco se queixa
mas
quando impossível lhe é
aguentar tanta
demência
abre a sua boca
bela e terrível
e ruge
tudo e tanto
que a catástrofe
filha da ganância
e dos poderes
mesquinhos
pequeninos
cínicos
podres
se faz ouvir
e sentir
até aos ossos
aos tendões
aos nervos
ao olhar

apenas a palavra
redenção
escrita apressada
numa placa
abandonada
à fúria das águas
agora revoltas
sem qualquer piedade
e nós fugimos
sem qualquer outra hipótese a não ser
correr
correr
sei lá para onde
recomeçando tudo de novo
da mesma velha maneira
ganância
cinismo
desprezo
violência

ah que os raios da aurora
me abençoem os lábios
bastando
para me alimentar
o corpo
o coração
a alma
e ganhe força para
derrubar
a velha maneira

disse ela
acariciando a face
e depois o peito
e depois as coxas
e depois as pernas
e
por fim
os sagrados pés






Não gosto muito do "dias de". Neste, o importante é lembrar as conquistas das sufragistas; miséria das misérias. Agora há outras. A história será cíclica?
Haverá uma escrita feminina? Isto foi escrito por mim que sou homem.




Imagem http://www.historiasiglo20.org/sufragismo/antisufrag.htm

19 comentários:

  1. Lindissimo texto!

    A escrita não tem sexo
    nem nexo
    É apenas o reflexo
    quem vem da alma
    escorrendo entre os dedos...




    A ti
    Pai, que ensinastes-me as primeiras letras
    A ti
    Filho, que não tive
    A ti
    Companheiro, que caminhastes ao meu lado
    A ti
    Amigo, que me ofereces teu ombro
    A ti
    Irmão, de brigas e brincadeiras
    A ti
    Homem, que nascestes do ventre da Mulher
    A ti, que nos compreende e nos envolve
    em abraços e nos afasta o medo
    A ti
    sem o qual, a vida não teria sentido
    Pois, pra quem nos enfeitaríamos,
    nos depilaríamos
    por quem choraríamos?
    A ti, HOMEM ao qual não foi
    criado um dia
    Mas que és fundamental em nossos dias

    A ti, todo o meu carinho!
    Menina do Rio

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  2. Bolas..., estavas inspirado!

    Volto mais tarde ou amanhã.
    Abraço.

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  3. Olá Jota

    Parece que este dia te foi fecundo.

    De facto é o um dia de reflexão, as sufragistas na primeira linha da emancipação da mulher.

    Quanto à tua questão sobre uma escrita feminina fica em aberto, assim como a da repetição cíclica da história.

    Beijinho
    Isabel

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  4. Maravilha de texto! E isso só reforça que a sensibilidade é sentimento comum ao Ser e não ao gênero.


    Beijo!

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  5. Gostei muito. Quanto ao resto, também não gosto de "dias de", parece-me que pelas mesmas razões que tu. Abraço!

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  6. Pois é, agora sou eu, mulher ainda por cima, que tenho de te aplaudir.

    Este poema fez-me lembrar um de José Fanha, inspirado num quadro de Paulo Rego A mulher Cão.

    Se a Isabelita - artista maldito- se lembrasse... quem sabe não sairia daqui uma "parelha" exemplar em potência, força, sensibilidade...

    Não sei se há uma escrita feminina, sei que enquanto houver Um Dia Internacional da Mulher, haverá mulheres com vontade de escrever os sentires que tu escreveste.

    Parabéns mais uma vez.

    Um abraço e boa semana.

    MV

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  7. Muito bom!!

    Em nome da mulher que sou, agradeço a profunda empatia poética! Com sinceridade, um abraço reconhecido :)

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  8. Olá poemar-te / Jota :)
    Tornei a ler e está mesmo muito bom.
    Também não sou muito de "dias de". Mas há "coisas" que devem ser sempre lembradas, nunca, mas mesmo nunca esquecidas!

    Abração.

    (o teu blog está "outra louça")

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  9. Magnífico poema caro amigo.
    Parece grande, mas no final até parece pequeno.
    Também não gosto de "dias", mas soubeste "dar a volta" e escrever um poema soberbo. Eu gostei mesmo muito. Parabéns.
    Abraço.

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  10. ._______querido Jota



    excelente poema



    ._____pois "os dias de"



    para mim todos os dias são "dias de"________de qualquer coisa_____...





    .parabéns pelo poema


    __________///






    beijO_____ternO
    bSemana

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  11. Olá Jota

    Tudo mudado por aqui e o cabeçalho a dar as boas vindas, o espaço está óptimo.

    E hoje deixo-te, já sei que andas a braços com o trabalho. Não te esqueças de ver o magnífico luar, ontem à noite estava lindo e relaxa.

    Beijinho e at'amanhã
    Isabel

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  12. Reparei agora no comentário da Marta e é verdade, é impressionante essa série da Paula Rego.

    Já fui. Tudo de bom.

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  13. Gosta de música coral e sacra ?

    Venha assistir ao concerto do dia 15 de Março às 16h no Salão Paroquial da Igreja do Sagrado Coração de Jesus em Lisboa. Entrada livre.

    Para mais informação, consulte o blogue do coro VOX MARIS.

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  14. Boa-Noite Jota

    Venho num pé e vou noutro, mas deixo-te dois selos que estão na minha lapela:

    o prémio Carmim e o blog Cristal.

    Já levantei voo.

    At'amanhã

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  15. Eh...lá..., boa música, sim senhor!
    Mas lá tenho eu que te explicar tudinho: "Piece of my Heart" do Eric Clapton está 2 vezes na lista.
    :)))

    Abraço, poemar-te.

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  16. Mas o que é que tu andas a fazer no blogue? Tás a ver porquê que eu fecho o meu, quando quero fazer publicações ou mudar alguma coisa.

    Eu é que me ri!
    Diz com o som da tua voz, ou seja ouve-te a ti próprio (foi o que eu fiz)mas com a entoação da Hermínia Silva, quando dizia "anda Pacheco":
    "É artista, sim senhor"

    Abraço, jota.

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  17. há uma escrita feminina, sem dúvida, como a realização de um filme por uma mulher é diferente da de um homem

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  18. É verdade, os "dias de" não têm nexo nenhum... todos os dias são bons, não há necessidade de dividir ora para isto ora para aquilo...
    Todos os dias são bons para escrever tal como este dia foi! Continuação de bom trabalho!

    P.S: Passarei por cá mais vezes, é um bom sítio para reflectir...

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