2009-02-21

Poética

amo as palavras
amo ainda mais
a escolha da palavra
certa

acima de tudo
amo a melodia correcta
dos lábios dizendo
a palavra exacta

não é fácil
escolher a palavra certa
a tonalidade merecida
não é fácil
encontrar a dicção exacta
que obriga
o coração
a seduzir a razão
e a razão
a seduzir o coração

é de trabalho que falo


da voz sentida
dos lábios laboriosos
lugar onde se encontram
coração e razão

escolher a palavra certa
a dicção límpida
é sedução
não a sedução
tonta
balofa
de engate

reles palavra

mas a sedução
que é namoro
passeio
diálogo
violência
voz
fala
silêncio
meditação
é de trabalho que falo

do lúcido trabalho do olhar
do saber estar
da harmonia
entre
dizer e fazer
onde a angústia
é tensão transitória
um ir mais além
um querer estar
querer ser
uma respiração tranquila

é isso a escolha
da palavra bela
do dizer correcto
é isso a sabia articulação
dos lábios

nada mais belo
do que uma boca
dizendo
a palavra certa


calo-me

recolho-me no silêncio
esse sábio
que poucos seguem
e no escuro
treino
o meu dizer
a minha voz
para que surja límpida
isenta de culpa

treino-a
para não ferir








Imagem cedida por gentileza da Isabel de Arista Maldito,
à qual agradeço, do fundo do coração.


http://imonteverde.blogspot.com/

13 comentários:

  1. Gostei imenso da poética! Quer na forma, quer no conteúdo!

    Espero que vás continuando...

    E desejo-te umas excelentes mini-férias :) Sempre dá para descansar um pouquinho do ritmo alucinante.

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  2. Sim é muito trabalhoso;difícil...porém prazeiroso!
    As vezes tenho dificuldade com as palavras também;mas tudo o que procuro ser ;dizer e expressar através de palavras é o que realmente sou:espontânea ;sensível ;sincera e suave!
    Acredito que desta forma não serei grotesca ;não ferirei sentimentos pelo menos não por querer...
    por que ainda que muitas vezes essa não tenhamos intenção causaremos feridas em alguém;mas suaves são as feridas feitas por aqueles que amam ;pois também apresentarão a cura...ou quem sabe ela própria não seja necessária para que haja a cura...às vezes é necessário abrir;libertar e nem sempre o que estava oculto no coração do outro era tão saudável quanto o outro achava!
    Sim;não é facil poetizar;não é fácil escolher palavras não apenas para as poesias ;mas também para a vida...
    Então melhor mesmo é viver a vida com simplicidade;com doçura e a singeleza de uma criança...ser sempre quem realmente somos e amar sempre;as palavras ditas na hora e no momento certo serão como bálsamo;como água fresca;um oásis no deserto...
    Boa noite
    foi um prazer que tenha visitado meu blog;também foi muito bom estar aqui!
    Com carinho;
    Adriana

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  3. Olá Jota

    Uma procura de depuração da forma, com a delicadeza de quem não quer ferir nem a própria palavra. É assim que senti a voz tua, do poema.

    Também te desejo uns dias soalheiros e calmos.

    Beijinho
    Isabel

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  4. Jota, adorei a tua "Poética" que diz muito, imenso.

    Entretanto, calo-me. Está a ser difícil encontrar A "palavra".

    Um abraço.

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  5. É na palavra que está a essência da Vida...

    Um poema muito rico em... palavras!

    Bj

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  6. Poemar-te, Jota, pelo q li....este foi post que mais gostei de ler e digo-te: se fores por este caminho, torno-me tua seguidora! Não q isso talvez te interesse, afinal de conta, quem sou eu? Ninguém em especial...mas que seja pelo menos um incentivo a uma depuração estética e anímica.
    Acho q é isso mesmo de q trata este poema, contudo, eu concordo c esse equilírio entre razão e coraçao e considero q o silencio seja essencial mas como tnho um temperamento apaixonado, sou sempre a favor da espontaneidade e do não-prologamento excessivo de silencios nem de um treino exaustivo e mecanico de gestos e atitudes.
    boa sorte!bj

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  7. Olá Jota

    Não tens de agradecer, a amizade é assim, sou eu então que te devo agradecer.

    Continua o teu caminho na poesia, com essa procura e exigência a que já nos habituaste.

    Beijinho
    Isabel

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  8. Cheguei, tenho andado, longe dos carnavais, já não tenho paciência, e é estranho porque eu adorava.
    Sabes nasci em Torres Vedras por isso a folia de Carnaval nasceu comigo.
    Mas por agora acho que está posta de parte.Aqui em Cascais nem uma máscara se vê.
    Também não estive cá fui no fim de semana para o Alentejo e dei férias à blogosfera.
    Só aceitei os mails.
    O poema está optimo, gostei muito, a palavra certa na hora certa.

    O visual do blogue também gosto voltaste às origens, mas eu gosto.

    Eu tenho um poema no blogue também sobre a palavra mas já muito antigo.
    Depois digo-te o mês em que publiquei e o dia, e se quiseres vai lê-lo depois para ver se gostas.
    Beijinho e inté
    Isabel

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  9. .______querido Jota



    (aqui estou eu:=)

    ...

    .a



    palavra


    ____o dizer




    .o



    sentir



    fluir o poema



    na.boca


    .o corpo______da palavra



    numa carícia______veloz_______mas



    .sentida



    ______________///


    belo.belo











    beijO______ternO

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  10. Foi assim: tu já tinhas um e
    ofereceste-me um igual. Eu, pelo meu lado dei-te outro. Na altura até achei piada porque escreveste que andavas carente, então venham mais "dardos". Resumindo e abreviando: sim também te dei o selo "DARDOS"!
    É tarde, estou cheia de sono, mas como a criançada, quero ficar acordada sempre mais um bocadinho.
    Ciau.

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  11. Tenho andado um bocadinho distante destes cantos virtuais.
    Hoje é só para te dizer que tenho na lapela do meu blogue um selo que te passo de coração aberto. Queria muito que o fosses buscar.

    Quanto a esta publicação eu voltarei, porque tenho que a tactear como gosto de fazer com alguns poemas. Por isso brevemente aqui me terás.
    Espero que com a interrupção tenhas ganho algumas energias.

    Um abraço

    MV

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  12. Andei a tactear as palavras deste belíssimo poema. Tentei que o toque fosse "limpo" para me trazer a VERDADE das mesmas.
    Assim posso agora dizer que dar corpo à palavra é fácil, é acessível a qualquer um que domine as regras da grafia; dar alma à palavra é trabalho árduo e mais árduo se torna se falarmos, como dizes, na palavra emanada do coração e da razão. É quase um duelo...

    Transcrevo em vez de usar as minhas palavras, ainda assim não mutile o sentido das tuas, deixando-as a sangrar:

    "calo-me

    recolho-me no silêncio
    esse sábio
    que poucos seguem
    e no escuro
    treino
    o meu dizer
    a minha voz
    para que surja límpida
    isenta de culpa

    treino-a
    para não ferir"

    Palavras poucas que dizem tanto, dizem tudo o que eu gostaria de ter sabido dizer.

    Parabéns por esta soberba postagem.

    Um abraço

    MV

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  13. Olá,

    Vim da frAgMenTus até aqui...

    Gosto dessa sensibilidade quanto ao uso da palavra.
    Entendo o equilíbrio entre a mente e o coração, a lucidez de uma ternura.
    Comigo, frequentemente, as palavras fluem como um rio que expressa e concretiza a intuição.
    Apenas deixo que ele corra.

    Um abraço

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