2012-07-23

Caros amigos, por motivos de saúde, não posso ser assíduo por estes lados. Tudo de bom.

2012-01-19


Jethro Tull - Thick as a brick - live - DVD




poema a quatro mãos



julguei ser possível o mar
o precipício doce
para o fim das vergastadas
ousei nadar até ao mar alto
lugar onde elas são inúteis
foi apenas um recorte do tempo imenso
um vento desviou a proa do navio
e devolveu-me à beira-mar
onde a verdade virgem é degolada
e passeamos com pés de larva
a natureza tudo acolhe
o bem e o mal
as ilusões idiotas
a ganância
a futilidade do poder
a beleza do amor
os sonhos puros de justiça
os gestos ancorados na verdade
conforme o ritmo e a cadência das marés
lhe comandam o remar




José Manuel Marinho e Marta Vasil




Bresson

2011-12-11


FALEMOS - livro de poesia da minha autoria




http://pt.scribd.com/doc/75264095/FALEMOS






Esta edição é, apenas, uma previsão, sem arranjo gráfico, de uma futura edição impressa.

2011-11-12


consulta



continuas alheio
aos sinais e queixas do meu corpo
simulas que me ouves
mas não esqueces o limite de tempo
da prestação do negócio
repara que só foste
receber-me à porta
na primeira vez
depois
levantaste-te
sim
mas quando sinalizaste o final
pois sabes ser o momento de aguardar
sentado
o dinheiro está certo
a cura
posso então esperá-la
ou arrasto-me nas drogas que prescreves

2011-07-02


poema ingénuo


diante de ti
eis a inquietação deste mundo
desmesurado
alheio às metamorfoses da natureza
a nossa amiga dilecta
esquecida
violentada
pensando alguns poderem manipulá-la

quanta cega ganância
quanta inútil sabedoria

dois mil e onze anos depois do cristo vivo
ainda se morre por falta de pão
água
e até de um
simples abraço amigo




2011-05-08

tédios




o poema recusa surgir
porque desconheço
o húmus das noites e dos dias
que sei eu da fala do mar
e do brilho das estrelas
espelhando-se nas águas
que sei daquilo que não vejo
nem toco
que sei eu
da minha própria
voz
que não ouço
que sei eu
deste país que foge do seu cais
encalha no deserto das ideologias
mercantis
nas quais conta mais
o saldo de receitas e despesas
do que um olhar
sério e brando
para aquele velho
com sacos de plástico nas mãos
e o corpo deitado na calçada
cujas pedras
hoje quentes
nem o peso lhe sentem

o que pode a minha
voz
perante isto
o que podem estas palavras
perante os rostos contendo gritos
disfarçando-se
em breves sorrisos
porque o dia começa
e há que agarrá-lo logo
no espelho
de manhã

pessimismo

talvez
mas então somos muitos
os pessimistas
pois os rostos
carregados e sonâmbulos
e as costas vergadas
arrastando-se em correrias
pelos túneis do metro
são ensaios
cujos títulos são
vencer o dia
vamos empurrando o dia
para que a noite surja e eu me deite
não em ti
mas neste colchão gasto
pelo peso do meu corpo
vazio de emoções
resta
quando se pode
ir às lojas
às feiras
aos hiper
ver e comprar
trapos
e conversar
nem que seja
apenas
sobre a medida das calças
do vestido
da camisa
e
quando tudo corre bem
acabarmos com um sorriso
mesmo que não dê para comprar nem vender

sair
levantar um pouquito
o olhar
e procurar
entre os prédios
da cidade
o céu impossível

ajuda bastante a quebrar
este tédio
esta atitude medíocre
mas por vezes
uma alternativa possível
à morte diante da televisão
artefacto armadilhado
de pseudo comunicação

o poema afinal surgiu
o poema
que disse eu
será o poema
uma voz
o que pode então a minha
voz
perante o destempero
do mundo









Eva Besnyo

2011-03-27


sem título


eis um passeio
ao longo do mar
tão perto e tão longe
afastado de nós
pelas tarefas
por vezes inúteis
de um quotidiano
de rotinas petrificadas
até ao massacre extenuante
de um dia
após o outro
sem pausa
nem música
nem voz






2011-03-21


HUGO MARÇAL, JUIZ? Vergonha e abuso nojento!




O LIXO PARA A LIXEIRA, JÁ!




imagem forum.zwame.pt


"Temos que fazer como os Arábes, libertar o país deste lixo e pô-los a todos em contentores,
para serem reciclados!!!!


Quando o magistrado Rui Teixeira é vetado para uma promoção a que tem
direito pela nota meritória da sua avaliação, certamente por ter cometido o
erro(??!!) de mandar prender suspeitos de pedofilia, pasmem meus senhores ,
pois neste mesmo país, o NOSSO, o acusado pedófilo Hugo Marçal vai poder
frequentar um estágio para Juiz...

Custa acreditar. Mas, o melhor, para quem tem dúvida, é consultar o Diário
da República. Isto é uma vergonha.

Meu pobre país, para onde vais!!!...

DIVULGUEM O MAIS POSSÍVEL
Escandaloso: HUGO MARÇAL ... JUÍZ ...!!!
Digam-me que isto é mentira!!!!!
Hugo Marçal... JUÍZ!!!!
Este processo das crianças violadas vai mesmo ficar em "águas de bacalhau".
É incrível a passividade do povo português face a este escândalo da
pedofilia. Tem que se fazer justiça!
Façam fwd do mail !!!!

"Hugo Marçal está em vias de ser admitido a frequentar o curso de auditor
de justiça do Centro de Estudos Judiciários.
O nome do arguido no processo de pedofilia da Casa Pia vem publicado no
Diário da República de ontem, entre centenas de candidatos a frequentar a
escola que forma os juízes portugueses, mas ao contrário dos outros,
Hugo Marçal não vai prestar provas....
Pelo facto de ser doutor em Direito - grau académico que terá obtido em
Espanha - está por lei «isento da fase escrita e oral» e tem ainda
«preferência sobre os restantes candidatos».
Resultado: o advogado de Elvas está na prática à beira de ser seleccionado
para o curso que formará a próxima geração de magistrados!

O nome de Hugo Manuel S. Marçal surge na página 4961 do Diário da
República - 2.ª série, com o número 802, na lista de candidatos a ingressar no CEJ .

Se concluir o curso com aproveitamento e iniciar uma carreira nos tribunais
- primeiro como auditor de justiça, depois... Como juiz de direito - Marçal
terá também o privilégio de não ser julgado num tribunal de primeira
instância.»
AH, POIS É !!!

É O PAÍS QUE TEMOS !!!
ISTO É ESCANDALOSO E UM ATENTADO À DIGNIDADE DESTE PAÍS, SERÁ QUE O POVO NÃO
VAI SABER E ATUAR EM CONFORMIDADE COM ESTE ESCÂNDALO OU JÁ NÃO TEM DIGNIDADE
E NÃO SE IMPORTA

Por favor espalhem esta obscenidade pois alguma coisa tem que ser feita!!!"

in http://canais.sol.pt/paginainicial/sociedade/interior.aspx?content_id=23912

2011-03-04


poema ingénuo




só o belo redime
só o belo
evoca silêncios sublimes
espanto

não sei o que ele é
mas sei que me transtorna
comove
excita
estimula
e se me cala
pela sua perfeição
ou um pormenor seu detém o olhar
do meu corpo
fico num estado
de paixão subtil
que fala baixinho
e namora comigo até
aparecer
um gesto
um olhar

talvez mesmo

um simples
beijo







yuri

2011-02-10


médicos



nem todos os que curam juraram hipócrates
razões obscuras se elevaram
nas asas da vã cobiça
da vil ganância
ou do perigoso desleixo

deponho em ti a minha esperança de vida
ou de morte

serás meu amigo
prestando atenção às minhas palavras
e aos sinais do meu corpo
lerás em mim hipóteses de cura
pensarás mais
amarás mais
sentindo-te então grandioso
lembrando aos teus amigos o imperioso que é
jurar hipócrates







heath

2011-01-21


modice


do alto do seu
metro e oitenta
dera-lhe um piparote
nos queixos
não levara a gravata
indicada
nem o fato
aconselhado

depois
de perna cruzada
no sofá
disse
agora vai queixar-te

era noite tardia
muito
e
no dia seguinte
haveria passerelle
devendo estar
bela
e
mortal





2011-01-16


Robert Wilson - Hamlet


Encenador americano, Robert Wilson dirigiu e interpretou Hamlet sob o modelo de um monólogo. A reter.



2011-01-15


Afinal o ano começa bem. Krystian Lupa em Almada.




Kristyan Lupa é um encenador Polaco. Se não houver alterações de programação, estará no Teatro de Almada, nos dias 14 e 15 de Janeiro de 2011, com Fim de partida, de Samuel Beckett. Espectáculo imprescindível, sendo Lupa um dos maiores encenadores mundiais.









2011-01-08


Ode Triunfal, Álvaro de Campos.

Esta ode, parece uma paródia do nosso presente histórico.


À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical --
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força --
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um excesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrénuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés -- oásis de inutilidades ruidosas
Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos da estatura do Momento!
Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,
Ou a seco, erguidas, nos pianos-inclinados dos portos!
Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!
Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,
Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,
E Piccadillies e Avenues de l'Opera que entram
Pela minh'alma dentro!

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-la-hó la foule!
Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!
Comerciantes; vadios; escrocs exageradamente bem-vestidos;
Membros evidentes de clubes aristocráticos;
Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes
E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete
De algibeira a algibeira!
Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!
Presença demasiadamente acentuada das cocotes;
Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)
Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,
Que andam na rua com um fim qualquer,
A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;
E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra
E afinal tem alma lá dentro!

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,
Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,
Agressões políticas nas ruas,
E de vez em quando o cometa dum regicídio
Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus
Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

Notícias desmentidas dos jornais,
Artigos políticos insinceramente sinceros,
Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes --
Duas colunas deles passando para a segunda página!
O cheiro fresco a tinta de tipografia!
Os cartazes postos há pouco, molhados!
Vients-de-paraitre amarelos com uma cinta branca!
Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,
Como eu vos amo de todas as maneiras,
Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto
E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)
E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!
Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!
Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!
Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,
Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,
Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

Ó fazendas nas montras! ó manequins! ó últimos figurinos!
Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!
Olá grandes armazéns com várias secções!
Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!
Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!
Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!
Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!
Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.
Amo-vos carnivoramente,
Pervertidamente e enroscando a minha vista
Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,
Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes --
Na minha mente turbulenta e incandescida
Possuo-vos como a uma mulher bela,
Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,
Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!
Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!
Eh-lá-hô recomposições ministeriais!
Parlamento, políticas, relatores de orçamentos;
Orçamentos falsificados!
(Um orçamento é tão natural como uma árvore
E um parlamento tão belo como uma borboleta.)

Eh-lá o interesse por tudo na vida,
Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras
Até à noite ponte misteriosa entre os astros
E o amor antigo e solene, lavando as costas
E sendo misericordiosamente o mesmo
Que era quando Platão era realmente Platão
Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,
E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

Eu podia morrer triturado por um motor
Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.
Atirem-me para dentro das fornalhas!
Metam-me debaixo dos comboios!
Espanquem-me a bordo de navios!
Masoquismo através de maquinismos!
Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

Up-lá hó jóquei que ganhaste o Derby,
Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!
Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!
Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas,
E ser levantado da rua cheio de sangue
Sem ninguém saber quem eu sou!

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,
Roçai-vos por mim até ao espasmo!
Hilla! hilla! hilla-hô!
Dai-me gargalhadas em plena cara,
Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,
Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,
Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!
Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!
Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,
As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,
Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto
E os gestos que faz quando ninguém pode ver!
Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,
Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome
Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos
Em crispações absurdas em pleno meio das turbas
Nas ruas cheias de encontrões!

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,
Que emprega palavrões como palavras usuais,
Cujos filhos roubam às portas das mercearias
E cujas filhas aos oito anos -- e eu acho isto belo e amo-o! --
Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.
A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa
Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.
Maravilhosa gente humana que vive como os cães,
Que está abaixo de todos os sistemas morais,
Para quem nenhuma religião foi feita,
Nenhuma arte criada,
Nenhuma política destinada para eles!
Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

(Na nora do quintal da minha casa
O burro anda à roda, anda à roda,
E o mistério do mundo é do tamanho disto.
Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.
A luz do sol abafa o silêncio das esferas
E havemos todos de morrer,
Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,
Pinheirais onde a minha infância era outra coisa
Do que eu sou hoje. . . )

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!
Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.
E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios
De todas as partes do mundo,
De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,
Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.
Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!
Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

Eh-lá grandes desastres de comboios!
Eh-lá desabamentos de galerias de minas!
Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!
Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,
Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,
Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,
E outro Sol no novo Horizonte!

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto
Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,
Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?
Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,
O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,
O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,
O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes
Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,
Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos,
Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,
Engenhos, brocas, máquinas rotativas!

Eia! eia! eia!
Eia eletricidade, nervos doentes da Matéria!
Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do inconsciente!
Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!
Eia todo o passado dentro do presente!
Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!
Eia! eia! eia!
Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!
Eia! eia! eia, eia-hô-ô-ô!
Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.
Engatam-me em todos os comboios.
Içam-me em todos os cais.
Giro dentro das hélices de todos os navios.
Eia! eia-hô eia!
Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!
Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!
Hé-lá! He-hô Ho-o-o-o-o!
Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

in www.odetriunfal.com


2010-12-25


tédios



o poema recusa surgir
porque desconheço
o húmus das noites e dos dias
que sei eu da fala do mar
e do brilho das estrelas
espelhando-se nas águas
que sei daquilo que não vejo
nem toco
que sei eu
da minha própria
voz
que não ouço
que sei eu
deste país que foge do seu cais
encalha no deserto das ideologias
mercantis
nas quais conta mais
o saldo de receitas e despesas
do que um olhar
sério e brando
para aquele velho
com sacos de plástico nas mãos
e o corpo deitado na calçada
cujas pedras
hoje quentes
nem o peso lhe sentem

o que pode a minha
voz
perante isto
o que podem estas palavras
perante os rostos contendo gritos
disfarçando-se
em breves sorrisos
porque o dia começa
e há que agarrá-lo logo
no espelho
de manhã

pessimismo

talvez
mas então somos muitos
os pessimistas
pois os rostos
carregados e sonâmbulos
e as costas vergadas
arrastando-se em correrias
pelos túneis do metro
são ensaios
cujos títulos são
vencer o dia
vamos empurrando o dia
para que a noite surja e eu me deite
não em ti
mas neste colchão gasto
pelo peso do meu corpo
vazio de emoções
resta
quando se pode
ir às lojas
às feiras
aos hiper
ver e comprar
trapos
e conversar
nem que seja
apenas
sobre a medida das calças
do vestido
da camisa
e
quando tudo corre bem
acabarmos com um sorriso
mesmo que não dê para comprar nem vender

sair
levantar um pouquito
o olhar
e procurar
entre os prédios
da cidade
o céu impossível

ajuda bastante a quebrar
este tédio
esta atitude medíocre mas
por vezes
uma alternativa possível
à morte diante da televisão
artefacto armadilhado
de pseudo comunicação

o poema afinal surgiu
o poema
que disse eu
será o poema
uma voz
o que pode então a minha
voz
perante o destempero
do mundo









imagem, Betty Martins

2010-12-05


sem título + Noir désir - Working class hero.


os cinquenta
são a última adolescência
a fala inquieta
que antecede
a velhice
que eu queria
serena
inconformada
capaz
ainda
de mergulhar nas ondas
de um mar poderoso




2010-10-31


vi o mar
estive com ele
protegi o corpo do sol forte
e deixei viajar o olhar

corriam uns
andavam outros
passeavam de mãos dadas
alguns
outros jogavam
aqueles nadavam

detive o olhar num grupo
sentado junto às ondas
permaneciam estáticos
escorrendo-lhes pela pele
o borrifo das ondas

vi o mar
estive com ele
mas tu não estavas lá





2010-10-15

ténue



um beijo atiça os teus lábios
e tu
ávida mas sem surpresa
suspendes o gesto
assim o tempo é mais teu
e segundo a segundo
gozas o aroma desse
sopro vital






imagem Rodin

2010-09-19


escrita


o movimento
imperfeito
dos lábios
articula
palavras vãs


--


quando o poema era
fala
cantava-se o poema
de boca em boca
era quente
o momento da
palavra
feita
fala
os versos não eram
solilóquios enaganosos
ninguém se precocupava
com o prelo
ninguém queria
o prelo
nem a estampa

que poema
hoje
se canta
a quente






2010-08-31


biografices



onde estão
os livros que li
e os que não li
serviram para quê

para provar
que foram mais importantes
as conversas que tive
e as que não tive
que foram
mais importantes
os silêncios que tive
e os que não tive
que foram mais importantes
os gritos que tive
e os que não tive
que foram mais importantes
as falas que tive
e as que não tive
que foram mais importantes
as caminhadas que fiz
e as que não fiz
que foram mais importantes
as insubmissões que tive
e as que não tive
que foram mais importantes
os gestos que tive
e os que não tive
a pulhice que tive
e a que não tive
a bondade que tive
e a que não tive
a ternura que tive
e a que não tive
a paciência que tive
e a que não tive
o ímpeto que tive
e o que não tive
o sexo que tive
e o que não tive
a sedução que tive
e a que não tive

o que foi mais importante
os livros que li
e os que não li
os diplomas que tive
e os que não tive

o que é a minha vida
a não ser a minha vida
o que é a vida senão viver

é ser cristo buda
bakunine mozart
shakespeare vicente
e os zé ninguém
anónimos e bondosos
e o filho a atirar-me com a almofada
e a mulher a atirar-me com a almofada
e a televisão a soterrar-me de informação
e os jornais a ultrajarem-me de informação
e a internet a inundar-me de informação

viver é tudo isso
mais o estar lúcido
com tudo atado ao pescoço
mais a desgraça
e a graça do mundo
atadas aos pés
viver é tudo isso
mais o estar lúcido
sendo um eterno rascunho
a reescrever-se eternamente






Leibobitz, Lance Armstrong

2010-07-24


Poesia dita. Cultura e Sem título.


BOAS FÉRIAS COM MUITA SAÚDE E ALEGRIA!




CULTURA .wav




AURORA mp3.wav




fonologias


murmurei um nome
quase em suspiro
mas ao lado perceberam
outro nome
imaginai a confusão
o delírio do ciúme
foi bater à porta errada
condição suficiente
para uma monumental
barracada

2010-07-14


tempestade



quando faço um poema
fico todo feliz
até parece que renasço
e o mar vem até mim
com as onditas a cavalo
da espuma
assim falou
o poetinha
aos seus amigos
e familiares
no lançamento
do seu livrinho

tinha bochechinhas vermelhas
muitas
até que
coisa inaudita
surgiu um visitante
nada usual
e disse
vruuuuummm
e varreu tudo à sua volta
era um tufão
desviado das filipinas
com muita fome
de pelintras convencidos

nota

nisto
qualquer dia
na luta
pela sobrevivência
caio eu
também
sabeis
nem todos são
camões ou pessoa
mas todos têm
direito à sua
vidinha



2010-06-25


náutica




gostaria que viesses aqui
a este lugar mediatizado
não porque te visito
ou tu me visitas
gostaria que viesses aqui
como quem passeia
pára
e vê
como se o mar alto estivesse diante
do teu olhar
da tua boca

não sei se mereceria tanto
não sei se mereço
o teu olhar
a tua boca
como se o mar alto estivesse
diante de ti
que por aqui passas
em passeio

sabes
desejo-te disponível
ao olhar
à palavra

2010-06-13


terapia



mais do que sorrir
ri
ri de tudo
e de ti
mas um riso
orgânico
que canse o corpo
até ao repouso
do sono


Retrato


deslumbramento
é a palavra

perante esse olhar
essa boca
essa energia poderosa
carinhosa
que irrompe desse corpo
deslumbramento
é a única palavra
surgindo destes lábios

desço o olhar por esses cabelos
mais loiros do que o trigo
na mais viçosa e acarinhada seara
e encontro a elegância única
das tuas mãos

os lábios movem-se

que dirá essa boca

talvez
mar
tumulto
inquietação


olho o teu rosto
a tua cabeça
a tua face
quanta luz
quanta beleza serena
nem os vales mais férteis
repousando nos dias cálidos
são tão belos

é luxo o teu sorriso
é belo ver-te sorrir
acalma o mundo
de quem vê

como será a tua voz

música rara
estimulando a fala


falemos








Betty Martins

2010-06-02


Do amor e da amizade.


O Beijo envolvente é tão forte e saudável como a Aurora oferecendo a sua luz pelos montes, vales e cidades. Um Abraço Amigo, Terno e Firme é uma ressurreição.









Eiko

Marianne Faithfull - As Tears Go By - Antes e depois.